Clube do Livro · Lugar Original

Toda quinta, às nove da noite, a gente abre um livro junto.

Um livro que ajuda a olhar para dentro, lido em voz alta numa sala do Google Meet. Ninguém precisa chegar com a leitura feita: ela acontece ali, no encontro. É gratuito.

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Capa do livro Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke

O livro da vez

Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke.

Um rapaz de dezenove anos escreve a um poeta que admira pedindo que ele diga se os seus versos prestam. Rilke responde com dez cartas que quase não falam de poesia: falam de solidão, de paciência com o que ainda não tem resposta, de procurar dentro o que a gente costuma pedir aos outros.

Os encontros

O que ficou de cada quinta.

Toque num encontro para ler o resumo. As gravações ficam numa página com senha, para quem participa.

Encontro nº 3 · 29 de outubro de 2026

A solidão será a sua pátria.

Carta 3 (Worpswede, 16 de julho de 1903) · ler o resumo

Na terceira carta, Rilke escreve de uma planície no norte da Alemanha, para onde foi descansar depois de sair de Paris abatido e cansado. É uma carta longa, que passa pelas dúvidas, pela sexualidade como uma força séria e criadora, pela relação com os pais e pela profissão. Algumas partes foram difíceis de entender enquanto eu lia, mas uma delas me deu vontade de chorar já na primeira leitura.

A conversa começou pelo fim da carta: "a sua solidão será a sua pátria e o seu amparo, mesmo em meio a relações bastante alheias, e a partir dela encontrará todos os caminhos." Alguém contou que sente solidão, junto com a ansiedade e a sensação de não se encaixar na religião, na política, em tantos lugares. Eu me perguntei se parte da solidão não vem do fato de sermos únicos: a gente procura grupos para pertencer, mas nenhum grupo dá conta da gente inteiro.

Rilke não romantiza a solidão nem a reduz à dor. Ele pede para amá-la e "suportar com queixas que soem belas a dor que ela lhe causa": transformar a solidão em música, em poesia, em livro, em alguma coisa que dê sentido a ela. Às vezes a gente tenta tampar esse buraco com multidão, com namoro, com amizades, e se frustra, porque tenta preencher com o que não preenche. Aí começa a culpar os outros, ou a si mesmo, como se houvesse algo errado com a gente. Quando, olhando bem, todo mundo é estranho.

O trecho que mais me pegou foi este: "alegre-se com o seu crescimento, no qual ninguém poderá acompanhá-lo, e seja bom com quem ficar para trás." Eu sou daqueles que tentam se fazer compreendidos, que ficam confessionais demais para trazer o outro para perto do próprio universo. Rilke parte de outro pressuposto: existe uma parte da jornada que só eu posso atravessar. Não é superioridade, é que cada um chega aonde a própria solidão o leva. Li ali um recado: parar de querer que todo mundo entenda onde eu cheguei.

"Não procure agora pelas respostas que não podem ser dadas, porque ainda não poderia vivê-las. Viva agora as dúvidas." Pensei nas perguntas que eu carrego hoje, como para que eu estou gravando tudo o que estou gravando. Talvez algumas respostas nunca cheguem, porque há sementes que a gente planta para outros colherem. Alguém lembrou que plantar pensando só na própria colheita também é um jeito de ser egoísta. E muita gente, cujo nome a gente nem sabe, plantou para que estas cartas chegassem até nós.

No fim, abri o Gênesis: "a terra era sem forma e vazia." Antes do "haja luz", houve uma grande solidão. Alguém confessou que passou boa parte da vida confundindo solidão com vazio. Saímos com algumas frases para o caderno: solidão não é vazio, é a nossa presença. É ela que antecede a "grande maternidade" de que Rilke fala, o nascimento de um ser humano mais essencial. E talvez seja também um jeito de voltar ao lugar original, onde a gente era só a gente.

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Encontro nº 2 · 22 de outubro de 2026

Paciência é tudo.

Carta 2 (Viareggio, 23 de abril de 1903) · ler o resumo

Na segunda carta, Rilke indica livros ao jovem poeta, fala de Jacobsen com um carinho enorme e, no meio das recomendações, faz um pedido: "Leia o menos possível coisas sobre crítica e estética." Confesso que achei a leitura difícil no começo, e não fui o único. Mas ela conversa direto com a primeira carta: de novo, Rilke tira o olhar do jovem de fora e devolve para dentro.

Foi daí que veio a primeira conversa: o risco de enxergar a vida com os óculos dos outros. Lembrei daqueles programas de calouros em que alguém canta desafinado, certo de que canta bem, e quando o jurado pergunta quem disse isso a ele, a resposta é a mãe. Quem nos ama também pode nos dar uma imagem distorcida de nós mesmos, e o contrário acontece: duas ou três pessoas que não gostam da gente bastam para alguém acreditar que é a pior pessoa do mundo. Alguém disse que a crítica chega como pedrinhas que a gente vai juntando, e que dá para aproveitar o que elas têm de bom.

"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada as alcança menos do que a crítica. Somente o amor é capaz de apreendê-las, sustentá-las e ser justo com elas." Para mim, foi a frase da noite. Se a nossa vida também é uma obra, existe nela uma solidão que não dá para evitar: ninguém sabe o peso que é ser do jeito que a gente é. Por isso a opinião dos outros sobre nós é sempre rasa. E Rilke consola: mesmo que a gente erre o caminho, o crescimento natural da vida interior leva, no seu tempo, a outros conhecimentos.

"Tudo está sendo gestado e virá à luz." Alguém lembrou da caverna de Platão, de quem sai do escuro e começa a enxergar a vida de outro jeito. Perguntei o que estava sendo gestado em cada um e veio à luz. Para mim, foi o próprio clube, que morava no meu coração e agora acontece toda quinta. Outra pessoa contou que este mês realizou um sonho de muitos anos.

Rilke pede para deixar o sentimento amadurecer "no escuro, no indizível, no inconsciente", e esperar com humildade e paciência o nascimento de uma nova clareza. Contei que tenho tentado isso: uma música sem letra do Senhor dos Anéis, a luz apagada no banho, um pouco de silêncio para acalmar o coração num mundo que pede atenção para tudo ao mesmo tempo. Eu tenho andado ansioso, e não fui o único a dizer isso. Alguém comparou a cabeça ansiosa a um computador com muitas abas abertas, em que a gente passa por todas e não aproveita nenhuma.

"Ser artista não significa calcular e contar, significa amadurecer como a árvore", que não apressa a seiva e confia que o verão vem depois das tempestades da primavera. Rilke ainda fala da sexualidade num sentido amplo, sem as suspeitas da igreja, e isso me levou a Freud: a sexualidade como potência de vida. Cada um de nós tem lugares que cabem e lugares que não cabem. A minha potência aparece quando escuto alguém, e some no trabalho burocrático. Uma participante contou que se encontrou na dança, e que aprendeu a dizer não aos lugares onde ia só para agradar.

Terminamos com a sensação de que a gente vive metade da vida para descobrir isso: que dá para desacelerar, que o mundo não acaba quando a gente diz não, que é melhor estar com duas pessoas que valem a pena do que com trinta que não fazem sentido. Como alguém disse no fim: não é solidão, é aprender a ser suficiente. E, como Rilke: paciência é tudo.

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Encontro nº 1 · 15 de outubro de 2026

Volte-se para si mesmo.

Introdução e Carta 1 (Paris, 17 de fevereiro de 1903) · ler o resumo

Abrimos o clube com a introdução e a primeira carta. Um rapaz que ainda não tinha vinte anos, prestes a seguir uma carreira militar que não combinava com ele, manda seus versos para Rilke e pergunta se são bons. Rilke quase não fala dos versos. Ele responde com uma pergunta muito maior: "O senhor me pergunta se seus versos são bons. Está olhando para fora de si, e é justamente isso que não deveria fazer agora. Volte-se para si."

Foi aí que a conversa começou. Quem quer escrever, gravar ou criar qualquer coisa conhece essa vontade de mandar o trabalho para alguém mais experiente e esperar o veredito. Eu me vi inteiro nessa carta: estou escrevendo um livro, e a primeira coisa que me vem é a velha síndrome do impostor, a pergunta sobre quem vai gostar do que eu escrevo. Rilke tira essa pergunta da mesa e põe outra no lugar, a que ele manda fazer no momento mais silencioso da noite: tenho necessidade de escrever?

"Escave bem fundo em si mesmo em busca da resposta." Perguntei quem ali tinha medo dessa escavação, e levantei as duas mãos primeiro. Alguém disse uma coisa que ficou comigo: o medo não é de escavar, é de descobrir o que tem lá e ficar com raiva de si por só ter visto agora. E se, no fim da escavação, a gente perceber que pouco do que faz é realmente nosso, teremos coragem de mudar o caminho?

Outra frase pesou: "Se o cotidiano lhe parece pobre, não reclame dele. Reclame de si mesmo." Eu uso óculos de quatro graus. Sem eles, a vida fica mais pobre, porque eu não enxergo os detalhes. Diante disso dá para fazer duas coisas: reclamar que a vida é pobre ou cuidar da vista para enxergar a beleza e as nuances. A gente nasceu num mundo imperfeito, cresceu numa família imperfeita e trabalha num lugar imperfeito, e ainda assim a pergunta de Rilke devolve a responsabilidade para dentro. A gratidão apareceu como um bom caminho para trocar de óculos.

Da introdução, ficou o rapaz que se apresentou a Rilke "de modo tão franco como jamais havia feito". Para quem a gente se apresenta assim, sem máscara e sem filtro social? Alguém lembrou de uma antiga chefe que perguntava pelo filho dela e saía andando antes de ouvir a resposta: há perguntas que são só formalidade. Falar a verdade não é para qualquer conversa, e talvez por isso seja tão raro encontrar alguém para quem a gente possa escrever uma carta como aquela.

Por fim, a necessidade. Quando uma coisa é necessidade de verdade, escrever, gravar, conversar ou tomar uma decisão, ela vem com energia, como quem come com fome e presença. Eu desconfio que muito da tristeza da gente vem da energia que guardamos sem perceber. Contei que o Lugar Original nasceu exatamente disso: por muitos anos eu vivi partido, o pastor de um lado, o casal do outro, o gamer em outro, e sempre deixava um pedaço de mim do lado de fora. Lembramos do filme Click, em que o personagem pula as partes chatas da vida com o controle remoto. Eu não quero viver no piloto automático. Quero me carregar por inteiro, até no que é chato, e aprender o que aquilo tem a me ensinar sobre mim.

Combinamos ler uma carta por encontro, sem pressa. São dez cartas, então serão umas dez semanas degustando o livro no ritmo do grupo.

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Como funciona

01

Entre no grupo do WhatsApp

Lá chegam o link do Meet e o lembrete da quinta.

02

20 min de leitura em voz alta

Eu leio, você acompanha. Não precisa ter lido antes.

03

30 min de conversa

Fala quem quiser; ouvir também é participar. Câmera ligada é opcional.

04

Faltou? Fica gravado

A gravação vai para a página com senha. A cada ciclo, alguns livros vão de presente para quem participa.

Próximo encontro

Quinta, 5 de novembro, às 21h, com a quarta carta. A sala fica aberta.

Não custa nada, não tem lista de presença e você sai do grupo quando quiser. Basta entrar para receber o link.

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